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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A aprendizagem é favorecida se se encontrar um sentido que a justifique!

Carlinda, Leite, Professora da PFCEUP, que faz o acompanhamento a algumas escolas TEIP, numa entrevista realizada em 2009 à revista Noesis, descreve o seguinte acontecimento que diz respeito a
 “… famílias que tinham apenas a leitura e a escrita rudimentar como meta e não viam na aprendizagem qualquer vantagem, as suas crianças aprenderam a ler escrevendo cartas aos familiares que estavam presos. Lembro-me de uma criança que, na primeira carta que escreveu, teve de aprender que a escrita representava uma abstração. Nessa primeira fase a criança ditou a carta e a professora escreveu. Depois, e para que a criança acompanhasse este processo, ela foi envolvida em tudo o que era exigido para que a carta chegasse ao destino e recebesse uma resposta do remetente do envelope. Ou seja, a criança teve de endereçar a carta, pôr o selo e levá-la ao correio. A segunda carta, embora manuscrita pela professora, foi já copiada pela criança, e lembro-me que na terceira a criança escreveu: “Mãe, desta vez sou eu que estou a escrever.” É vulgar as crianças aprenderem primeiro a ler do que a escrever, mas o facto de estarem a escrever com sentido fez que aquela criança aprendesse rapidamente. Daqui tira-se uma ilação: é que a aprendizagem é favorecida se se encontrar um sentido que a justifique."

Leite, C. (2009). “Caminhos para o sucesso” in Noesis, revista do Ministério da Educação (DGIDIC, nº 78, pp.36-41

quarta-feira, 20 de março de 2013

Desta porta para dentro todos aprendem, incluindo a escola


(Partilha de) Práticas de Desenvolvimento Profissional numa cultura de colaboração: todos como amigos críticos
                                                                      
Paulo Marinho[1]

Este texto emerge aquando a realização de um Fórum[2] local de partilha pedagógica realizado no ano de 2012 no Território Educativo de Intervenção Prioritário - Agrupamento de Escolas de Pedome.

(…) Reconheço que neste agrupamento as práticas têm promovido o desenvolvimento profissional, tem existido muito trabalho que em cada dia tem sido melhorado, aperfeiçoado e desta forma, contribuído para o aperfeiçoamento profissional de cada um. Um aperfeiçoamento ancorado numa comunidade de aprendizagem no qual todos (e com todos) têm aprendido. Arriscar-me-ia neste momento a convocar o slogan de Azevedo: “(…). Desta porta para dentro todos aprendem, incluindo a escola” (Azevedo, 2010: 29). Parece-me que isto começa por acontecer neste Agrupamento de Escolas de Pedome, em que nela todos aprendem, incluindo a escola.
Existe da vossa parte um esforço na construção e desenvolvimento de uma cultura de colaboração, de articulação, de partilha, de reflexão com sentido de melhorar, ou seja, uma cultura transformadora (Marinho, Leite e Fernandes 2011). Não obstante, compreendo que não é de todo facilitado o desenvolvimento deste longo processo, pois, as culturas de isolamento há muito instaladas e perpetuadas nas escolas, a gestão conflituosa entre o tempo monocrónico administrativo e policrónico da vida e a esquizofrenia burocrática na escola não facilitam o processo. Todavia, acredito como tantos outros autores e, particularmente, como Fullan e Hargreaves (2001), as vantagens que a existência de culturas colaborativas nas escolas pode originar. Estes autores arrogam que “nas escolas eficazes a colaboração está ligada a normas e a oportunidades de aperfeiçoamento contínuo e de aprendizagem”, nas quais “os professores são mais suscetíveis de confiarem, valorizarem e legitimarem a partilha do saber especializado, a procura do aconselhamento e a concessão de ajuda, dentro e fora da escola” (ibidem: 83). É neste contexto que os professores e todos os outros atores que estão na escola tem oportunidade de construir elos fortes de relação colegial e quebrar as barreiras do individualismo e trabalhar estreitamente em conjunto e usufruindo de uma aprendizagem enriquecedora entre pares. Nas culturas colaborativas, as práticas já não correspondem a um único espaço privativo, apesar de pessoais, são também esfera de partilha com os seus pares. Os insucessos e as incertezas são partilhados e discutidos abertamente e a crítica não é negligenciada, bem pelo contrário, constitui a norma na reflexão na qual todos se tornam amigos críticos. Hoje, tal como tem sido nos vossos já tão conhecidos e valorizados Seminários, Fóruns de partilha pedagógica, todos os agentes educativos desta Escola assumiram como premissa a construção e desenvolvimento de uma cultura de colaboração assente na partilha, no apoio e na crítica construtiva. Tudo isto com um objetivo comum: melhorar o sucesso de todos!
É nesta linha de pensamento que Hargreaves (2001) considera que a cultura colaborativa fortalece o apoio moral entre pares, melhora a qualidade do ensino e das aprendizagens dos alunos, ao mesmo tempo que permite a partilha “das cargas de trabalho e das pressões que correm da intensificação das exigências” e reduz as diferenças de perspetivas temporais existentes entre professores e administradores entre outras. Uma cultura que assume a espontaneidade, voluntariedade, uma orientação para o desenvolvimento, difundidas no espaço e no tempo e a imprevisibilidade (ibidem). Nestas características enunciadas, as culturas colaborativas não acontecem por decreto, mas emergem do desejo de participação e ação dos atores envolvidos. É neste sentido que as culturas de colaboração podem ter importância para o desenvolvimento profissional e organizacional, uma vez que ultrapassam o campo do intimado e passam para o campo do desejado – o desejo de avançar e transformar as conceções, as crenças, os valores na direção de melhorar as práticas (Marinho, Leite e Fernandes, 2011).
(…) Agora, só me resta dizer e mais uma vez: Desta porta para dentro todos aprendem, incluindo a escola.




[1] Consultor em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária – equipa de consultores Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).
[2] Fórum que se concretiza todos os anos letivos no final do segundo período envolvendo toda a comunidade educativa com objetivo de partilhar o trabalho/práticas pedagógicas desenvolvidas pelos seus autores e atores educativos assente no desígnio: PARTILHAR, ARTICULAR, REFLETIR E MELHORAR.